Natal
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Achei um texto que escrevi, anos atrás, sobre a rotina de Natal em casa (23.dez.2006)
Na véspera, o bacalhau é apresentado às batatas e as demais colegas de forno, enquanto a toalha de família, bordada à mão pela tataravó, é carinhosamente lavada e agora seca no varal.
A casa está impecável. A bagunça do dia-dia é entulhada num canto qualquer.
Não sei mais onde estão as chaves do carro.
O amparador agora é um deserto.
Os pisca-pisca já estão todos espalhados pela casa.
Mas sempre tenho que sair correndo pra comprar mais, porque na última hora uma sequência cisma em não piscar. E Natal com pisca-pisca que não pisca, não é Natal!
E onde estão as chaves do carro?
As rabanadas estão à beira da bancada à espera de irem à frigideira.
- Maria, você misturou uva-passa no arroz? Não sabe que Edu não gosta de uva-passa?
No computador, a enxurrada de e-mails desejando um ótimo Natal e próspero ano novo.
Muitos deles são spam.
Aos dedicados, uma resposta dedicada.
Achei as chaves do carro e agora cadê o documento?
Leio o jornal e a previsão é de chuva.
Meu afilhado pergunta por que não neva no Natal como nos filmes.
Respondo que aqui nos trópicos, temos nevasca de chuva.
Adoro bagunçar com a imaginação delas.
Munido de muita paciência, vou à rua comprar um pisca-pisca que pisca.
O povo em casa fica nos retoques finais, enquanto compro as últimas lembranças pros que tardiamente confirmaram presença na ceia.
Na volta, passo pela caixa do correio e volto com mais cartões de Natal.
Todos cuidadosamente expostos junto à árvore.
Tudo de gente velha. “Hoje em dia, os jovens não mandam mais cartão de Natal”, resmunga minha mãe.
Largo as chaves do carro e o documento no amparador.
Vou ao banheiro e, quando volto, não estão mais lá.
Sabe-se lá onde foram parar…
Assim é a rotina de Natal.
Feliz Natal!

UPDATE 2011
1º Natal sem minha mãe.
Sem saco pra Natal e relembrando a bagunça que era na época que ambas as avós brigavam por atenção (uma judia e outra católica).
Fui criado assim: meio lá, meio cá. Sou perdido entre esses dois mundos desde então…
A árvore deste ano está montada na cabeça, e os pisca-pisca são as lembranças dos idos tempos que, uma simples reunião de família era motivo de muita agitação na sua preparação.
O gosto das rabanadas, que minha mãe fazia questão de fazê-las elas mesmo, estão salivando minhas lembranças. “Ninguém sabe fazer rabanada direito”, ela dizia todo ano com a barriga no fogão, enquanto eu folheava o caderninho de receitas escrito à mão pela minha bisa.
Mas esse ano não tem correria, não tem arroz com passas, nem árvore com cartões.
O Natal será assim: eu, minhas lembranças e uma boa conexão à internet.
Feliz Natal!

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